Valores Éticos Mínimos PDF Imprimir E-mail
Postado por Mário Martinelli Júnior   
sábado, 03 de março de 2007
Temos vivido nos últimos quinze anos uma mudança radical no modo de trabalho dos laboratórios ...


Dra. Mie D'Alessandro

Temos vivido nos últimos quinze anos uma mudança radical no modo de trabalho dos laboratórios de análises clínicas brasileiros. Essa mudança começou com a implantação em larga escala da automatização, acompanhando uma tendência mundial de miniaturização: de volume de amostra, volume de reagentes e, no final minimização da remuneração dos nossos serviços. No contexto da economia brasileira, nesse mesmo período tivemos mudanças drásticas: picos de inflação, seqüestro de dinheiro, estabilização da moeda, planos e mais planos econômicos, enfim vivemos um carrossel de emoções. E como o nosso setor reagiu? Como bom agente econômico, procurou se adaptar aos novos tempos, muitas vezes sacrificando lucro em nome da produtividade e do volume de serviços. Temos uma característica: sabemos fazer benchmarking muito antes desse conceito entrar em moda. Copio tudo o que meu concorrente faz porque ele deve estar certo. Só que não copiamos só os aspectos positivos, aquilo que realmente irá acrescentar algo ao nosso serviço. Como resultado ficamos como um bando de errantes, indo de um lado para outro, sem um planejamento, sem vislumbrar um horizonte e empobrecendo cada vez mais.

Nossa atividade tem dois aspectos distintos: temos o lado técnico e o lado comercial. Não dá para separar os dois. Eles têm que caminhar juntos para que o serviço que prestamos tenha qualidade e preço. Nossos serviços complementam o diagnóstico. Portanto devemos dar ao médico clinico a melhor informação possível. Isso se consegue com profissionais qualificados e atualizados; reagentes e equipamento de qualidade. Quanto a essa parte, que é essencialmente técnica, nossas sociedades cientificas tem cumprido sua função com empenho lutando por uma atualização cientifica continuada e também pela moralização do setor.

Quanto à outra parte, a comercial, que responde por nossa sobrevivência, muito pouco tem sido feito. Primeiro porque, por estatuto, as diversas entidades não podem interferir numa relação comercial estabelecida entre duas pessoas jurídicas (laboratório e tomador de serviços); segundo, porque a ética foi posta de lado. Vale dizer que a famosa "lei de Gerson" está em vigor. Muitos colegas ao aceitarem trabalhar por preços muito baixos porque acreditam que vão ganhar através do aumento de volume de serviços, não sabem que estão encurtando seu horizonte de trabalho e o pior, estão comprometendo todo o setor de análises clinicas. Todo o aprimoramento que o bom desempenho técnico exige tem custo e isso muitas vezes é ignorado pelos mais afoitos, que ao combinarem um preço, esquecem que terão que repor essa despesa.

O ultimo movimento: aquisições e fusões de laboratórios vem provar uma reengenharia do setor, com uma ótica de otimização do uso de equipamentos e de pessoal e conseqüente diminuição dos custos operacionais. Também mostrou que, se estamos desanimados achando que o sistema de saúde brasileiro está falindo, o capital estrangeiro não está. Existe luz no final do túnel!

A discussão sobre o futuro do setor é constante em todos os encontros e o que nos preocupa a todos é aonde essa competição interna desenfreada nos levará. Temos ouvido de representantes dos tomadores de serviços: se você não aceita trabalhar por esse preço, tem quem o faça.

Precisamos mudar de postura; acreditar na importância da nossa atividade dentro do contexto da saúde do país e nos conscientizarmos que precisamos ser éticos no relacionamento com nossos parceiros, sejam eles quais forem.

Dra. Mie D'Alessandro é ex-presidente da SBAC – SP




Comentários (2)
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1. 08-03-2007 22:54
 
Ler este texto da minha querida amiga Mie D\'Alessandro me remeteu a um passado de muitas lutas e enormes desgostos. Me recordo que nós discutíamos este assunto nas inúmeras viagens que fazíamos por este Brasil, em particular dentro do estado de São Paulo, nos bancos dos carros do CRF-SP que nos levavam por todo o estado. Chegamos a um consenso de que o setor deveria possuir um valor mínimo ético para ser praticado e, aqueles que resolvessem trabalhar por menos, deveriam sofrer as sanções por parte de seus Conselhos Profissionais. Na época, eu estava a frente da Comissão de Análises Clínicas e Toxicológicas do CRF-SP, onde submeti a proposta de criação de uma \"Tabela de Valores Éticos Mínimos aos Laboratórios de Análises Clínicas sob Responsabilidade Técnica de Farmacêuticos\", nos moldes da Portaria Criada pelo Conselho Federal de Medicina que vai neste sentido; à apreciação dos membros, com a evidente aprovação dos mesmos. Em seguida, encaminhei uma consulta ao departamento jurídico do CRF-SP, que se manifestou a favor da proposta, indicando que a mesma não possía inconstitucionalidade alguma. Munido deste parecer, encaminhei a proposta da Criação de um Piso Ético de Valores para Exames Laboratoriais à diretoria do CRF-SP. Tal proposta foi submetida ao plenário, sendo aprovada por todos os Conselheiros presentes. Diante destas vitórias, consegui um documento oficial do CRF-SP, assinado pelo então presidente Francisco Caravante Júnior, dando total apoio à proposta e remetendo-a ao Conselho Federal de Farmácia. Tudo isto ocorreu entre fevereiro e maio de 2004. Fui então, em meados de junho à Brasília, para apresentar a idéia ao Plenário do CFF, onde o fiz. A resposta do presidente daquele órgão era de que tal proposta seria encaminhada à Comissão de Análises Clínicas e que, assim que houvesse uma resposta, o CFF se manifestaria. Acreditando nas palavras dos nossos representantes em Brasília, procurei o presidente do Conselho Regional de Biomedicina 1a. Região, Dr. Marco Antonio Abraão e entreguei-lhe uma cópia com todos os documentos e pareceres que eu possuía relativos ao caso com a proposta de que fosse feita a mesma coisa com a classe dos Biomédicos. Processo que o presidente Marco Antonio Abraão conduziu de maneira rápida e eficiente. Como o CFF não se manifestava, ainda que diante de muita insistência, fomos à Brasília, grupo este cimposto por representante do CRF-SP (eu) a Conselheira Federal do CFF Dra. Lenira, além de representantes dos Conselhos Regional (1a. Região) e Federal de Biomedicina para apresentar a proposta e solicitar a autorização do Conselho Federal de Medicina para utilizarmos a CHBPM como o piso a ser estabelecido, isto foi em setembro de 2004... 
 
Estamos em março de 2007 e, até hoje, nem CFF, tampouco CFM se manifestaram acerca do assunto, oque me leva a crer que o interesse dos mesmos é nulo. Vale ressaltar que, se dependesse do Conselho de Biomedicina, este assunto já estaria resolvido a tempos. 
 
É triste relatar isto, mas esta é a história da nossa categoria. Portanto, colegas, se nós não fizermos algo, seremos engolidos pelo capital estrangeiro que não pára de adentrar o país, como bem disse a querida Mie no texto acima.
Registrado
 
Luiz Roberto Del Porto
2. 09-03-2007 13:31
 
Prezado Luis Del Porto, 
 
Este seu relato, de alguma forma me conduz a profunda reflexão. Será que nossos representantes estão mesmo preocupados com nossa atividade ?? Ou com as anuidades que pagamos todos os anos ?? E o impostos sindicais ??  
Para que pagamos Conselho , Confederações , sindicatos e etc .... , se na hora que mais precisamos só ouvimos " balela ".  
Prezado Luis, tenha a certeza que sua luta nos levará a trilhar os verdadeiros caminhos da vitória. Iremos nos fortalecer na base, ou seja nos estados . 
Luis, este comentário é de profunda relevância aos nossos colegas que estão chegando, é preciso que todos saibam que está luta não é de agora , mas sim de um passado repleto de vitórias e desgosto como citado por vc no texto. 
O Artigo da nossa colega Mie , neste 10 anos de profissão é algo mais verdadeiro , que li. 
 
Atc, 
Mário Martinelli Júnior. 
Pres. SBAC Bahia.
Registrado
 
Mário Martinelli Júnior

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